terça-feira, 7 de outubro de 2014

Simpósio na Turquia

 Inicio da proposta louca, mas na esperança e estar errada



 Ainda crente que o meu "sim" teria bons resultados

 Aqui sim, sem desistir, mas já a ter noção que o meu "sim" me iria trazer dissabores



 E claro, aqui começa o resultado, tentar pelo menos aproveitar a parte de cima e fazer respiros para que a secagem fosse mais homogénea 

 Já com a certeza que afinal me tinha errado profundamente quanto ao responsável da organização


 Apesar de eu avisar que não valeria a pena cozer o que estava danificado, insistira

 E aqui está o triste resultado

Havia que desfazer o trabalho, por questões de segurança

Quem começar a ler as legendas e a ver as imagens não deverá seguramente estar a perceber nada. Pois passo a esclarecer.
De 5 a 21 de Setembro realizou-se em Eskisehir, Turquia, o 8º Simpósio Internacional de Cerâmica. Portugal, Roménia, Rússia, Irão e Turquia, foram os países convidados. Simpósio esse organizado pela Câmara Municipal e pela Faculdade de Belas Artes de Eskisehir.
Tínhamos recebido o desafio da parte da organização para fazermos uma proposta sobre o acidente com os mineiros turcos, do passado mês de maio. 
A minha proposta era fazer um túmulo coberto de "flores" em memória dos que perderam a vida. 301 "flores" brancas, simbolizando as perdas de vida dos mineiros e depois um gradação de cores, uma vez que, quando alguém morre, não é só uma vida que se perde, morre um pouco também a família, os amigos, a sociedade... enfim o mundo inteiro. 
Aprovaram o meu projecto, mas logo no primeiro dia pediram-me para aumentar largamente a escala, ou seja, em vez de 50 x 25 x 100 cm, passar para 75x50 x 200 cm. Em 15 dias pareceu-me um pedido louco, mesmo trabalhando a todo o gás (como é costume), há a questão do tempo de secagem, que neste caso implicava no meu entender uns 3 meses com secagem lenta. Disseram-me para não me preocupar, que tinham estrutura para esculturas de grande formato e que já estavam habituados a resolver este tipo de problemas. Ora perante esta certeza toda da organização (eram muitos, mas na realidade resumia-se a apenas um "pequeno ditador"), deixei de lado a minha experiência de anos e dei o beneficio da duvida a esta "organização". 
Claro está que no segundo dia de trabalho comecei a perceber que iria trabalhar em força, com os meus 4 preciosos assistentes, mas que o risco de acabarmos o trabalho como o pretendido seria quase que mínimo. 

Pois foi, o meu "sim" à proposta foi o meu maior erro e que me serviu de lição para o futuro. Dar ouvidos a quem não se conhece o trabalho, a quem não sabe ser profissional, a quem é arrogante e ignorante, a quem é um pequeno ditador e a juntar a isto tudo um barro de qualidade miserável.... dá nisto. 
Nunca participei num simpósio com tanta estrutura, com tanta gente envolvida, com 50 assistentes das belas Artes para nos ajudarem, mas que na realidade só um elemento desta organização é que tinha voto na matéria, todos os outros tinham que se sujeitar às ordens dele, independentemente de estarem certas ou erradas. E esse "pequeno ditador", como o baptizei, é nada mais nada menos que o professor de cerâmica da faculdade de belas artes de Eskisehir. Um péssimo exemplo para a faculdade, para os alunos, para o publico que nos visitava no local de trabalho.
Um simpósio que custou fortunas, que deu para muita gente encher os bolsos, muito show, muitas fotos com a organização e câmara municipal, muitas entrevistas para jornais e televisões, mas que espremido não dá em nada.
É que não fui só eu a ter este dissabor, infelizmente muitos mais terminaram o simpósio sem trabalho ou com ele todo "restaurado" com cimento.
Mesmo com os trabalhos todos partidos, a organização achava que eram dignos para por em praça publica e que o fez com quem permitiu e não respeita o seu trabalho e a si mesmo. Tive que desfazer o meu trabalho todo em pequeninas peças e colocar eu mesma no contentor do lixo, para me assegurar que não o colocavam no jardim contra a minha vontade. 
Foi um desgaste físico e emocional durante 15 dias, que para quem assume a 100% o seu trabalho, tem repercussões negativas no estado de espírito. Saímos de lá  quase todos esgotados, desgastados e arrependidos por termos dado ouvidos a quem não devíamos. 
Mas nem tudo foi desastroso, alguns elementos do grupo valeram muito a pena conhecer, os assistentes que me ajudaram eram formidáveis e espero que tenham aprendido a lição também.

6 comentários:

Helena Erthal disse...

Sofia, o mais importante foi sua capacidade de re-organizar o trabalho e apresentar uma peça de valor artístico apesar de todos os contratempos.
obrigada por compartilhar também os dissabores, pois são com eles que realmente aprendemos.

um forte abraço
helena

Sofia Beça disse...

Devemos todos aprender com os bons e maus momentos.
Fiquei surpreendida com o seu comentário, uma vez que poucos se dão ao trabalho de ler o que se escreve e muito menos comentar.
Fico-lhe muito grata
Um abraço
Sofia

Alice Diniz disse...

Olá Sofia
Um abraço de solidariedade por esta experiência de sabor amargo, mas que ajuda e muito a "apurar o paladar"

Sofia Beça disse...

Olá Alice

Sem duvida, estas experiências custam-nos no momento, mas saímos ainda mais forte.
Beijinhos

xavier Monsalvatje Vich disse...

Hola Sofía, menudo trabajo, siento mucho lo que aconteció, deberías publicar el nombre de ese "pequeño dictador", para huir de él si nos lo encontramos!
Un beso y enhorabuena por el trabajo!
xavier Monsalvatje

Sofia Beça disse...

Que surpresa boa ver-te por aqui. Sim, é de fugir deste "pequeno ditador". Chama-se Bilgehan Uzuner. Uma pena para quem se cruza com ele.
Um beijo grande para ti