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quinta-feira, 22 de maio de 2008

Wali Haves em Alcora

O "forno" foi montado por pisos, com tijolos e placas refractarias.

Depois de concluído, Wali Haves colocou a sua oferenda- uma garrafa de vinho, uma maçã e incenso.

Aqui estão alguns dos "escravos" do Wali Haves, pelo menos foi assim que eu me senti no fim de tudo aquilo.

Quando tudo começa a arder. Para quem entende minimamente do assunto, vai achar estranho as aberturas já estarem fechadas com as placas refractárias.

Passado algum tempo começou-se a ver as chamas. Se antes de o acender já estava com bastantes aberturas, com a dilatação do calor pior.

E passado cerca de duas horas, assim estava o "forno".

O Museu de Alcora tem vindo a fazer um festival de cerâmica, no Verão. No passado ano, como disse anteriormente, Portugal foi o país convidado, mas paralelamente a isso havia outras actividades, feira de cerâmica, exposições de concursos e a demonstração de uma cozedura.
Wali Haves era o responsável por essa actividade. Quis construir um "forno" de 6 metros por 2 metros de altura. Para isso necessitou da ajuda de vários ceramistas ou até mesmo simples curiosos, para montar o que vêm nas fotos. Segundo a teoria dele, íamos colocando tijolos e placas para fazer patamares para se poder colocar a lenha, as peças e sal. Ficou com vários pisos com tudo isso, fechando o "forno" com placas refractárias.
Isto teoricamente funcionaria, se ele tivesse tido o cuidado de usar placas de alta temperatura e que as paredes ficassem bem feitas. Cheguei a ver pessoas a pôr pequenos bocados de azulejos para nivelar a parede????
Alguns de nós perguntamos se ele não achava que as paredes estavam "um pouco " tortas e respondeu que não havia motivo de preocupação.
Na minha ignorância, deixei que duas peças minhas fossem para dentro deste "forno". Claro está que nunca mais as vi.
Para mim o que ele fez não foi um "forno" mas sim uma fantástica escultura com fogo. Mas para isso não precisava de peças dentro. Quando uso a palavra "escravos" é no sentido que de ele não estava minimamente preocupado com as nossas peças e necessitava de ajuda. E essa foi a forma de nos ludibriar.
Quando tudo estava desfeito, fui-lhe perguntar o que pensava ele do que se tinha passado e a resposta dele foi muito elucidativa, estava zangado porque os bombeiros e a policia colocaram vedações de protecção e ele não gostava, ficava feio.....
Acho que por aquela zona ficou "queimado".

terça-feira, 20 de maio de 2008

Soenga

As peças cruas são colocadas num buraco de terra e faz-se uma fogueira no centro para as ir aquecendo.

Ao fim de bastante tempo, já as peças estão suficientemente quentes e há bastantes brasas. Começa-se a colocar as peças umas em cima das outras.

Depois de todas empilhadas, coloca-se ao seu redor a lenha, não pode ficar nenhuma abertura e é necessário estar sempre a tapar o que o fogo vai consumindo. Se assim não for, as peças não ficam todas cozidas e entra bastante ar, baixando a temperatura.

Chega a uma altura e deixa-se de pôr lenha. Espera-se que a temperatura suba um pouco mais (consegue ir aos 900ºC).

A fase seguinte é colocar o mais rapidamente possível caruma, para que não se perca temperatura.

Depois coloca-se terra até que o buraco fique quase todo tapado. Desta forma, as peças terminam de cozer e cria-se uma atmosfera redutora (sem oxigénio) e as peças ficam negras.

No dia seguinte, abre-se o buraco com bastante cuidado para não se partir nada.

No passado ano, o Museu de Alcora, convidou-me a ser comissária e participante da exposição de ceramistas portugueses contemporâneos. Na altura convidei o Heitor Figueiredo, Karin Somers, João Costa, João Carqueijeiro e Virginia Fróis. Uma vez que nesse ano, Portugal era o país convidado, aproveitei para convidar o oleiro César Teixeira, que de contemporâneo não tem nada, mas muito para mostrar de uma técnica de cozedura primitiva. São muito poucos os oleiros que ainda usam este método para cozer os seus trabalhos.
É uma forma de cozer bastante dura. Como vêm pelas fotos, obriga a um esforço físico muito grande. Demasiado calor e muito fumo. Nada bom para a saúde, ainda por cima, foi no verão e Alcora é no Mediterrâneo.....fazem ideia da temperatura no local??
Mas os resultados finais justificam o esforço. As peças ficam com umas tonalidades e brilhos negros. Os espanhóis ficaram fascinados com o César. Esperemos que ele não pare.