terça-feira, 19 de maio de 2026

Exposição "Onde o corpo Escuta a Matéria - Registos de um corpo de trabalho"





"Rascunhos do Pensamento" - 2025
250 x 130 x 5 cm
Porcelana chinesa e decalques alta temperatura.

Rascunhos do Pensamento, é uma instalação composta por páginas de porcelana pintadas com caracteres chineses, evocando cadernos de apontamentos mentais. A obra parte de uma reflexão íntima: a sensação de viver entre milhares de pensamentos e, ao tentar comunicá-los, perceber que muitas vezes o outro não compreende. Como se falasse uma língua estrangeira - como se falasse "chinês".
O uso da porcelana remete à fragilidade da comunicação e à permanência do que se diz, mesmo quando mal interpretado. Os caracteres, escolhidos não pelo seu significado, mas pelo visual ilegível ao olhar ocidental, são um espelho da distância entre o que se pensa, o que se diz, e o que é entendido.
Esta obra questiona os limites da linguagem e os ruídos da tradução emocional. Um diário silencioso onde a beleza do incompreendido se transforma em matéria.

Fotos de António Chaves

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Exposição "Onde o corpo Escuta a Matéria - Registos de um corpo de trabalho"






"Entre o Sino e Insecto" - 2026
500 x 500 x 10 cm
Porcelana e grês de diferentes cores, instalação suspensa por cabos e vibrações

Instalação sonora composta por cerca de 2400 elementos em porcelana suspensos, baseados nos sinos de templos. Ao vibrarem, produzem um som contínuo que oscila entre o toque ritual e o zumbido orgânico, aproximando-se do som de um corpo vivo. A peça ativa o espaço como campo de escuta, onde a matéria deixa de ser apenas forma para se tornar presença sonora, instável e em transformação.

Fotos de António Chaves

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Exposição Onde o Corpo Escuta a Matéria — Registos de um Corpo em Trabalho


Onde o Corpo Escuta a Matéria - Registos de um corpo de trabalho

Esta exposição propõe um percurso pela forma como a CHina influenciou profundamente a minha prática artística, a partir de três residências realizadas entre 2024 e 2025: Shangyu, Jingdezhen e Yixing.

Ao longo destes períodos de trabalho, o contacto direto com os materiais locais, com os modos de produção e com os contextos culturais específicos de cada região transformou a minha relação com a cerâmica - não apenas enquanto técnica, mas como linguagem artística. As obras que produzo na China são, muitas vezes, radicalmente diferentes das que realizo em Portugal. 

Essa diferença nasce, antes de mais, da matéria: trabalhar com porcelana - pela sua dificuldade, fragilidade e exigência - obriga-me a outro ritmo, a outra escala de gesto e a uma atenção ao detalhe. A paisagem cultural e humana dessas regiões infiltra-se naturalmente no modo de trabalhar.

Em Portugal, onde trabalho sobretudo com grês e forno de lenha, o material pede outro registo: mais físico, mais denso, mais ligado à terra e à ideia de permanência. São duas linguagens distintas que convivem dentro da mesma prática artística.

Não é raro que quem conhece o meu trabalho em Portugal estranhe as obras realizadas na China - alguns chegam mesmo a dizer que "não parecem minhas". Esta exposição nasce também dessa fratura aparente: da vontade de mostrar que a identidade artística não é fixa, mas construída através da experiência, do território e da disponibilidade para a transformação.

A exposição reúne esculturas realizadas com materiais provenientes das diferentes regiões chinesas, apresentadas em diálogo com fotografias e vídeos do processo de trabalho, dos ateliers, das paisagens e dos lugares onde as obras nasceram. Estes registos funcionam como parte integrante da obra, revelando o tempo, o gesto, o erro e a adaptação.

O percurso expositivo integra ainda uma dimensão sonora, concebida como ambiente imersivo, com uma criação sonora de Jorge Queijo desenvolvida para o espaço expositivo, ampliando a experiência do visitante e reforçando a relação entre corpo, espaço e matéria.

Mais do que uma exposição sobre viagens, este projecto é uma reflexão sobre deslocação, contaminação e identidade: como um território estrangeiro transforma a linguagem de uma artista - e como essa transformação passa a fazer parte, de forma permanente, do seu trabalho. 

Sofia Beça

(Fotografia de António Chaves)