sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Uma obra habitada há quase vinte anos.





Uma obra à espera de ser habitada.
Fiz esta escultura por volta de 2007/2008, em grés, com engobe branco, cozida a lenha no meu antigo forno, em Outeiro.
Na altura já me interessavam os habitáculos dos animais: ninhos, casulos, tocas, esconderijos. Lugares de abrigo, proteção e permanência.
Construí-a a partir dessa ideia e deixei-a no terreno. Não para a abandonar, mas para esperar.
Queria que, com o passar dos anos, pudesse ser habitada. Que a natureza se apropriasse dela e acrescentasse à cerâmica uma matéria que eu não podia produzir: o tempo.
Quase vinte anos depois, continua exatamente no mesmo lugar.
O grés permanece firme, mas a superfície já não é apenas minha. Os líquenes foram desenhando lentamente a sua própria pele. A terra acumula-se no interior — de vez em quando retiro alguma — e entretanto chegam aranhas, formigas e outros pequenos habitantes que entram e saem sem pedir licença.
A obra foi mudando sem que eu lhe tocasse.
Talvez tenha acontecido exatamente aquilo que imaginei quando a fiz: deixou de ser apenas uma escultura sobre um habitáculo e tornou-se, verdadeiramente, um lugar habitado.
Às vezes é preciso deixar uma obra sozinha durante quase vinte anos para perceber que ela continuou a transformar-se sem nós.